edição: 7 número: 7ano: 2015período: Janeiro-Junho 2015  
 

Apresentação

Em sua sétima edição, a Revista Rebeca transita em torno de questões do audiovisual latino-americano. Seu destaque é a pluralidade de olhares sobre este campo do conhecimento, já totalmente identificado e reconhecido pela academia, demarcado por grupos e autores engajados em uma reflexão aprofundada sobre amplos aspectos da atividade nos 20 países do sub-continente. Um desses grupos, a Plataforma de Reflexão sobre o Audiovisual Latino-americano (PRALA), da Universidade Federal Fluminense, foi o responsável pela entrevista desta edição, com o crítico, historiador e pesquisador Paulo Antonio Paranaguá, hoje jornalista do Le monde, que conta em seu currículo com títulos já clássicos da literatura cinematográfica. A entrevista foi realizada quando da realização do Encontro da SOCINE em Fortaleza, em outubro de 2014.

Paulo Paranaguá reflete sobre as particularidades da história comparada e sobre a retórica latino-americanista frente a uma integração ineficaz; fala do peso das relações triangulares que envolvem a América, a Europa e as nossas culturas do sul do continente, com seus diálogos harmoniosos ou tensos no campo das artes. Fala também da produção transnacional, do documentário, dos processos críticos e dos limites da interpretação. Paulo aborda ainda temas de seu mais novo livro, resenhado na Rebeca nº 6.

O dossiê desta edição, seguindo a temática estabelecida para o XVIII Encontro da SOCINE em Fortaleza, traz o cinema latino-americano para o centro dos debates, ao mesmo tempo que, em movimento centrífugo, expande a ideia de “latino” para incluir outras identidades que cruzam o continente e também o ampliam para o mediterrâneo e além. Nossa intenção é defender uma ideia de que “latinidade” se interrelaciona e ultrapassa fronteiras e culturas nacionais, e mesmo entre continentes. Os autores dos textos selecionados carregam consigo essas marcas identitárias: americana-cubana, anglo-canadense, norteamericano, alemão, franco-americana, venezuelano-canadense e argentino. Culturas em interação e confronto.

Ana Lopez investiga novas relações de poder (político, estético, econômico, ideológico) na sempre desigual e hemisférica via de mão dupla entre o Sul e Norte. Uma nova cartografia geopolítica proposta por Catherine Benamou propõe inusitadas relações transnacionais entre as Américas, a Europa e (aqui uma novidade) o Oriente Médio, para incluir questões também novas em uma conhecida dupla de gêneros - a mulher e o melodrama - sublinhando o desencanto e o pessimismo com as perdas e os ganhos que a (pós) modernidade trouxe para países em desenvolvimento.

Marvin D’Lugo é outro autor que também, há muito tempo, vem estendendo um conceito de “latinidade” para além deste continente, ao incluir o cinema de Pedro Almodóvar como um fenômeno trans-hispânico, desterritorializado, verdadeiramente transnacional. O anglo-canadense Peter Rist, com um sentido de descoberta, nos introduz ao cinema (aqui desconhecido) do realizador argentino-canadense Federico Hidalgo que trabalha, a partir de sua própria experiência, com a mobilidade dos corpos migrantes entre o Sul e o Norte, tendo como cenário a paisagem multi étnica de Montreal.

Em importante texto de 2011, inédito aqui, Cristina Venegas também traz novos insights sobre o corpo de Che em sua emblemática iconografia, a partir de uma afinada e detalhada leitura de Diários de motocicleta (2004), de Walter Salles. Corpo e filme inescapavelmente translatinos.

Em um viés comparatista e como resultado de sua pesquisa atual, o alemão Peter Schultze traça os principais eixos intermidiáticos e interculturais encontrados entre Hollywood e o cinema mexicano a partir de dois gêneros bastante populares: o western e a comedia ranchera.

Omar Rodriguez chega aos filmes através da análise de Juan de los muertos (2011), uma produção cubana em que o tradicional herói revolucionário dos anos 60 é substituído por um caçador de zumbis, numa comédia gore, que atualiza as vicissitudes da representação do popular de forma grotesca, melodramática e paródica, brincando com as utopias da revolução.

Finalmente, Roque González problematiza as políticas públicas para o setor audiovisual na América Latina, refletindo sobre os principais mecanismos de intervenção do Estado, o mais das vezes apoiando a produção e negligenciando a comercialização, para aumentar a sua presença nas telas latino-americanas e no mundo. Em um contexto de intensa digitalização, os programas de fomento ainda são bastante tímidos, desconsiderando políticas integradas que englobem o cinema, a televisão e as novas plataformas do audiovisual.

Na Seção Livre temos o privilégio de apresentar um trabalho de Arlindo Machado, um dos mais conhecidos pesquisadores de meios audiovisuais no Brasil. Seu ensaio trata de um dos temas mais importantes no cinema: a presença de elementos gráficos na tela, figurativos ou não. Trata-se de um campo de pesquisa que talvez tenha Eisenstein como um de seus pioneiros. Abordando a obra de dois artistas gráficos, Saul Bass e Jean-Christophe Averty, o estudo de Machado sugere novas perspectivas de pesquisa. É, portanto, oportuno que a seção inclua também o estudo de Cristiane Guzzi, que tem como objeto a vinheta de abertura da minissérie A pedra do reino (2007) e sua relação com a estética consagrada pelo Movimento Armorial, comandado por Ariano Suassuna.

A seção também percorre outros caminhos. Henrique Codato revisita a produtiva presença da psicanálise na teoria do cinema, mostrando que estamos longe de esgotar o assunto. E Luiz Bargmann Netto discute a presença do cinema no âmbito da Universidade de São Paulo, percorrendo uma trajetória que se estabelece a partir dos anos 1950. A primeira proposta formal de instituição de uma escola de cinema de nível superior no Brasil foi feita na USP. Isso ocorreu em 1960, quando Antonio Cândido e Florestan Fernandes levaram a idéia de Paulo Emílio Salles Gomes ao colegiado da universidade. Vale lembrar que o projeto foi devidamente recusado, sob a alegação de que cinema era mero entretenimento superficial.

A seção inclui ainda o trabalho de Emília Teles da Silva sobre cinema indiano, tão pouco conhecido no Brasil; em seu trabalho, Emília discute a importância da censura e suas implicações políticas na Índia. Mannuela Ramos da Costa escreve sobre os impactos da legislação da televisão por assinatura no Brasil e sua relação com nossa produção cinematográfica. Jailson Dias Carvalho explora a recepção da obra de Godard por Glauber e o Cinema Novo, que deixou forte marca sobre os realizadores brasileiros. Carla Maia trabalha sobre quatro documentários recentes, que têm por denominador comum visões pessoais e afetivas do trágico período da ditadura militar no Brasil. E Greice Cohn articula a fotografia, o cinema e novas tendências da arte contemporânea.

Nesta edição, Rebeca publica três resenhas sobre campos distintos da produção e do pensamento (sobre o) audiovisual. O primeiro texto, de Marco Túlio Ulhôa, apresenta uma reflexão sobre o livro Cinema e Cordel: jogo de espelhos, de Sylvie Debs (2014). Conforme aponta Ulhôa, Debs procura “estabelecer relações entre a sétima arte e a literatura de cordel, realizando um trabalho de impacto não só teórico, ao aproximar as questões conceituais que envolvem essas duas formas artísticas, como também histórico e memorial, ao revelar os trajetos confluentes entre a cinematografia nacional e um vasto material bibliográfico composto pela produção artesanal de cordéis”. Já a segunda resenha, de autoria de Lúcio Reis Filho, aborda uma obra de referência dos estudos sobre o horror e o fantástico, The Ashgate Encyclopedia of literary and cinematic monsters, editada por Jeffrey Andrew Weinstock (2014). De acordo com Reis Filho, a enciclopédia, como o próprio título informa, “consiste em uma coletânea de textos científicos sobre o monstro e a monstruosidade na cultura popular, com destaque para os campos da literatura, do cinema e do audiovisual”. Fechando a seção de Resenhas, Thiago Falcão se debruça sobre o livro Gameworld interfaces, de Kristine Jørgensen (2013), desenvolvendo uma oportuna análise sobre o pensamento da autora, que “se concentra no universo dos jogos eletrônicos, mas o faz de uma forma que pode, certamente, não apenas aproximar os videogames dos estudos do audiovisual contemporâneo, como auxiliar no entendimento das relações fronteiriças entre o conteúdo de uma obra e seu aspecto material.”

A seção Fora de Quadro destaca a escrita de argumentos cinematográficos, incluindo suas bordas com a escrita roteirística, voltando-se em particular às origens veladas de filmes de Glauber Rocha e Éric Rohmer. Com a tradução comentada de O testamento de Dom Quixote, argumento inédito de Glauber, Albert Elduque indica as possíveis influências do livro de Miguel de Cervantes sobre Cabeças cortadas (1970). Ao apresentar a tradução do argumento de O signo do leão (1962), de Éric Rohmer, Marina Takami explicita a filiação a Béla Bartók, bem como a importância da música na construção do filme do cineasta francês.

A editoria geral e os editores de seções da Rebeca 7 desejam a todos uma boa leitura.

 
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