edição: 6 número: 6ano: 2014período: Julho-Dezembro 2014  
 

Apresentação

Nesta sexta edição de REBECA, que completa três anos de publicação, o nosso destaque e chamada de capa é a entrevista inédita com o Professor Ismail Xavier, organizada e realizada pelo Professor José Gatti e pesquisadores convidados. Consideramos que a trajetória marcante de Ismail Xavier para os Estudos de Cinema, em nível nacional e internacional, e o conteúdo e formatação inéditos da entrevista merecem o destaque desta edição.

Foi a primeira entrevista da Rebeca em forma de debate e coube ao Prof. José Gatti a tarefa de conduzir sua orquestração, inclusive mobilizando seus alunos da graduação. A escolha do entrevistado, o crítico, professor e pesquisador Ismail Xavier, foi consensual. Esta situação aconteceu quando recebemos a notícia da condecoração ministerial que foi dada ao emérito professor pelo Ministério da Cultura. A entrevista foi na Cinemateca Brasileira (SP), num magistral encontro. A partir deste exemplo, esperamos que outros pesquisadores projetem ações do gênero em um futuro próximo.

O Dossiê dedicado ao documentário apresenta a última seleção de artigos voltados ao tema, com a amplitude necessária para as abordagens múltiplas que caracterizaram a seção. Encerramos, assim, três dossiês voltados ao documentário, o que indica a importância do gênero na produção e pesquisa atual. Se as reflexões já ultrapassaram a condição do gênero documental puro e voltam-se cada vez mais para os hibridismos que caracterizam o território, não mais como uma oposição à ficção, o Dossiê reflete a diversidade das temáticas e recortes. Há relevantes considerações sobre a obra de Edgar Pêra e as contribuições da Escola de Cambridge para o documentário biográfico norteamericano, assim como as tendências do documentário interativo. Mas há, sobretudo, provocações sobre o documentário brasileiro moderno e a estética do conjunto da obra produzida em anos de DOCTV. Mapeamentos igualmente relevantes sobre a sobrevivência do documentário brasileiro pós-64 e sobre os limites da cavação e o ato de documentar na São Paulo dos anos de 1920 e 30. Certamente uma seleção final capaz de expressar a diversidade da produção teórica neste campo, fiel aos objetivos de Rebeca.

Conforme tradição já estabelecida pela Rebeca, a Seção de Temas Livres busca dar conta da pluralidade de temas, abordagens e metodologias que povoam os estudos do cinema e do audiovisual. Nesta edição, Silvia Okumura Hayashi apresenta seu artigo “A expansão da imagem e a fragmentação da narrativa”, enquanto Rogério Almeida reflete sobre “Possibilidades Formativas do Cinema”. Já a dupla Marcelo Dídimo e Érico Oliveira de Araújo Lima discorrem sobre filmes brasileiros em “Corpos em deslocamento: passagens pelo sertão de O Céu de Suely e Deserto Feliz”, enquanto Elder Kôei Itikawa Tanaka examina as “Reproduções do cinema e do rádio em Kansas City, de Robert Altman”. Suzana Reck Miranda observa “A ressonância do modelo analítico de Philip Tagg para os Estudos da Música no Cinema”, enquanto Wilson Oliveira da Silva Filho contribui com seu olhar em “Lembrando das luzes da cidade: projeções mapeadas, “geocinema” e performances audiovisuais em tempo real para além das salas de exibição”. Já Fabio Allan Mendes Ramalho trata das “Variações sobre a constituição do encontro amoroso”.

A seção também traz contribuições de pesquisadores que tratam de temas da história do cinema: Carlos Roberto Souza, em “A propósito do cinema Triângulo -um saco de pancadas exemplar”; Soledad Pardo, em “Los orígenes de una estrella: las comedias iniciales de Zully Moreno”; André Antônio Barbosa, em “Atmosferas do passado: o cinema de Salomão Santana”.

Na seção Resenhas e Traduções, apresentamos aos leitores três análises de importantes obras nos estudos de cinema contemporâneo, além da tradução de texto inédito em português de um dos fundadores do Círculo Linguístico de Praga, o russo Roman Jakobson. A primeira resenha é do Prof. Dr. Ademir Luiz da Silva, da Universidade Estadual de Goiás, sobre a mais recente edição do livro O negro brasileiro e o cinema, de João Carlos Rodrigues. Silva destaca a relevância da obra de Rodrigues pela clareza e inteligência com que o autor averigua como o cinema nacional tem refletido ou não a realidade do negro brasileiro.

Em seguida temos a resenha do livro A experiência do cinema de Lucrécia Martel, de Natália Christofoletti, realizada pela Professora curso de Cinema e do PPGCOM-UFPE Ângela Prysthon. A obra se debruça sobre uma das mais importantes diretoras argentinas da atualidade e é, sem dúvida, uma preciosa contribuição sobre o cinema latino-americano contemporâneo.

Por fim, temos a apresentação do mais novo livro do pesquisador Paulo Paranaguá: A invenção do cinema brasileiro: Modernismo em três tempos, feita pela documentarista e professora da ECO-UFRJ Guiomar Ramos. Em sua resenha, Ramos destaca o encontro entre Modernismo e cinema proposto pelo autor ao analisar a trajetória do cinema brasileiro no século XX no período compreendido entre a Semana de Arte Moderna em 1922 e o Cinema Novo nos anos 1960.

A seção apresenta também a tradução inédita em português do ensaio The Dominant, do linguista russo Roman Jakobson, realizada pelo Prof. Dr. Fernando Vugman, do curso de Cinema e Realização Audiovisual da UNISUL. O conceito de "dominante" é um instrumento de teoria e crítica de extrema utilidade nas áreas da arte e da cultura e esta tradução resgata a importância das contribuições do autor, além de ser um convite para um novo olhar sobre o formalismo russo.

Finalmente, a seção Fora de Quadro continua com o mapeamento de escritas não usuais, testando agora os não limites entre cinema, crítica, poesia e crônica. Em “2 Poemas de Rubens Rodrigues Torres Filho”, o crítico Carlos Felipe Moisés ressalta as influências do cinema sobre o ato criador do conhecido filósofo, tradutor e poeta. São assim apresentados os seus poemas “E de resto, Glaura? Tem ido ao cinema?”, e “Plano-sequência”, em que na criação de imagens as relações cinema-poesia tomam forma. Em “Três filmes e um papelão (o ponto final)”, o escritor Airton Paschoa derrete e reordena criticamente o que seriam traços usuais do instrumental acadêmico e da crítica cinematográfica em sua prosa irônica, não sem inspiração marxista, ao retomar o seu texto publicado em nosso primeiro número, “Match Point e o jogo dos gêneros (ou o papelão das artes?)”, Fora de Quadro de 2012, para percorrer três outros filmes — As invasões bárbaras, O homem ao lado e O grande chefe — examinando potenciais vanguardísticos em obras de grande difusão.

Desejamos a todos uma boa e produtiva leitura!

Os Editores

 
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