edição: 5 número: 5ano: 2014período: Janeiro-Junho 2014  
 

Apresentação

Este quinto número da Revista REBECA, consolidado seu papel de espaço privilegiado de reflexão acadêmica sobre o estado das pesquisas sobre o extenso campo audiovisual contemporâneo, retoma a questão central do documentário, reforçando seu dossiê temático. Nacional e internacionalmente reconhecido como a forma mais esteticamente inovadora do cinema brasileiro contemporâneo, o documentário ganha destaque por sua larga tradição e por uma galeria de nomes de expressão, como o prova a recente mostra itinerante intitulada Cruzamentos: Contemporary Brazilian Documentary, apresentada em diferentes cidades nos EUA ao longo deste ano.

Selecionamos aqui alguns ensaios que destacam filmes e experiências que tensionam, conflitam e especialmente abrem diálogos insuspeitados na desafiadora via de mão dupla entre o documentário e a ficção—marca inquestionável do cinema contemporâneo (e não só no “documentário” — agora entre aspas — e não só no Brasil). Filmes nos quais seus protagonistas, independente de classe e posição social, ao refletirem sobre suas próprias histórias pessoais também trazem luz sobre suas identidades e autorrepresentações, em um jogo que embaralha memória e identidade, registros diretos e também encenações de viés mais poético. Em questão, encontramos reflexões sobre o “jogo” das representações, o papel chave da entrevista (como em Coutinho), personagens reais que “ficcionam” suas próprias narrativas.

São caminhos que ganham força, em geral, a partir de análises comparativas entre dois ou mais textos— como no caso de Vida nova sem favela e Rocinha 77, ou, ainda, entre Deus e o diabo na terra do sol e El camino hacia la muerte de Viejo Reales. Ou ainda quando se voltam para os deslocamentos fragmentários de Elena. Em comum, estéticas experimentais, produções independentes e também análises atuais sobre filmes “datados” que nos informam muito sobre temas endêmicos e, por isso mesmo, de total ressonância neste Brasil de 2014, como, entre outros, as frequentes remoções de comunidades mais pobres e excluídas. Textos escritos por Adriano Chaves Cruz, Simplício Neto, Silvana Flores e Rafael Wagner Costa.

Um expressivo e potente artigo de Martin Botha, do Centre for Film and Media Studies da Universidade da Cidade do Cabo, contextualiza e analisa a produção documentária da África do Sul. Centrado em filmes dos irmãos Craig e Damon Foster, ele nos apresenta a uma cinematografia que explora temas atemporais e universais na relação do homem com o ambiente, valorizados pela tradição oral das narrativas africanas.

A Seção de Temática Livre deste número assinala quatro vertentes distintas do campo da pesquisa nos meios audiovisuais. O artigo Troubler et diriger l’acteur débutant : la méthode Brisseau, escrito por Laurie Deson-Leiner (pesquisadora da Université Michel de Montaigne Bordeaux III e associada da Afeccav — Association Française des Enseignants et Chercheurs en Cinéma et Audiovisuel, entidade-irmã de nossa Socine), traz uma discussão ainda pouco explorada no contexto acadêmico brasileiro: a direção de atores e atrizes para a tela. O texto original em francês vem acompanhado de uma cuidadosa tradução para o português, de Fernando Scheibe. A Poesia da Luz de Clarissa Campolina, de Denilson Lopes, explora o espaço na tela do cinema experimental, num ensaio de reflexão filosófica, área em que Lopes tem demonstrado reconhecida competência. A antropóloga Maria Luiza Rodrigues Souza, com seu artigo Modos de ver e viver o cinema: etnografia da recepção fílmica e seus desafios, discute a relevância da etnografia e sua metodologia para os estudos de recepção, constituindo-se numa importante contribuição para estudiosos de cinema no Brasil, geralmente ligados aos campos da comunicação, das artes e da literatura. E, finalmente, em Fragmentos da cidade cartão-postal: o Rio de Janeiro no cinema documentário e ficcional dos anos 1900-1930, a jovem pesquisadora Danielle Crepaldi articula a crônica jornalística, o cinema documental brasileiro do período silencioso e o cinema hollywoodiano na representação de nosso patrimônio urbano.

A Entrevista desta edição faz uma interessante junção entre imagens e palavras com a fotógrafa Melanie Einzig. No encontro com a professora e pesquisadora Susana Dobal, o trabalho e a trajetória de Einzig são dissecados e apontam para uma problematização mais ampla da fotografia documental, sobretudo a partir das imagens da cultura americana e das ruas de New York. A entrevista apresenta também um ensaio fotográfico feito por Susana Dobal que atua como comentário imagético-verbal da obra da fotógrafa.

Na seção Resenhas, este número de REBECA apresenta textos sobre os livros: Sobre a história do estilo cinematográfico (Editora da Unicamp, 2013), do teórico e historiador norte-americano de cinema David Bordwell; A sombra que me move: ensaios sobre ficção e produção de sentido (cinema, literatura, tv) (Ideia/Editora Universitária, 2012), do professor e pesquisador brasileiro de audiovisual Luiz Antonio Mousinho; Os cinemas de Lisboa – um fenómeno urbano do século XX (Lisboa: Bizâncio, 2012), da professora e pesquisadora portuguesa Margarida Acciaiuoli; e Cinematographo em Nictheroy: história das salas de cinema de Niterói (Niterói Livros / INEPAC, 2012), do professor e pesquisador de história do cinema brasileiro e preservação audiovisual Rafael de Luna Freire.

Sobre o livro de Bordwell, Renato Luiz Pucci Jr. apresenta ao leitor uma visão ampla a respeito da obra, mas concentrando-se na discussão sobre a concepção de “programa de pesquisa” trabalhada pelo autor e alertando que se trata, na verdade, de um minucioso exame sobre o que produziu a historiografia do cinema durante o último século, especialmente sobre a dinâmica das vertentes de pesquisas voltadas para o problema do estilo. Já o livro de Mousinho é abordado por Marcia Tiemy Morita Kawamoto, que demonstra como a obra investiga alguns exemplos marcantes da produção audiovisual brasileira, salientando a ideia do autor de que a televisão e o cinema do país também funcionam como espaços de lirismo, crítica e inovação. Os outros dois livros resenhados, de Margarida Acciaiuoli e de Rafael de Luna Freire, têm uma preocupação contínua de compreender e demonstrar as conexões entre cinema e espaço urbano. De acordo com Carolina Oliveira do Amaral, em Os cinemas de Lisboa, Acciaiuoli examina as relações entre a arquitetura e os cinemas de Lisboa, agenciadas por uma monumental pesquisa histórica que vai da lanterna mágica às novas redes multiplex. Já Márcia Bessa discorre sobre o livro de Freire observando como o autor não somente recupera uma historiografia das salas de cinema de Niterói, como também revela os modos como elas seguiram as transformações sociais e comportamentais naquela cidade desde o início do século XX aos dias atuais.

A seção Fora de Quadro lança luz às anotações de filmes, realizadas durante ou logo após a projeção por Paulo Emilio Salles Gomes e Jean-Claude Bernardet. O gosto pelo registro imediato, marcado pela vibração que causa ainda a experiência da sala escura, recebe aqui duas abordagens diferentes. Pedro Plaza Pinto apresenta as anotações de projeção do filme Zézero (1974), feitas por Paulo Emílio, que se apropria de narrativas não convencionais a partir de uma escrita atenta aos ritmos sonoros e espaciais. Margarida Adamatti, por sua vez, introduz as notas de Bernardet a respeito de Os mansos (1973), enfatizando a teorização da comédia erótica, bem como as sintonias entre manuscrito e artigo final, publicado no jornal Opinião. Parte integrante dos trabalhos de análise dos críticos, tais notas de trabalho parecem nos trazer de volta a uma inquietude muito rarefeita hoje, quando vemos na reflexão escrita brilharem bem menos as obras do que os conceitos que as deveriam iluminar, numa espécie de crescente ofuscamento da assim chamada “crítica imanente."

Este número da REBECA inaugura uma novidade editorial voltada a ampliar o espectro de seus postos de observação, procedimento revelado através da constituição de duplas de editores que se alternarão na elaboração de cada número semestral. Assim a REBECA garante a qualidade cada vez maior de olhares abrangentes sobre seus temas.

Os editores

 
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